Hipocrisia e a polivalência do Ser

“Sou um homem doente … Sou um homem despeitado. Sou um homem desagradável.” – Primeiras linhas de Notas do Subterrâneo – F. Dostoievski

No meu último texto disse que pautava minha vida e minhas decisões em experiências empíricas verificadas. Mas essa é uma meia-verdade. Falsa. Sou, na verdade, um grande hipócrita. Somente faço isso quando essas experiências ou fatos provam ser de natureza negativa ou pessimista. Quando nessa longa jornada, a qual chamamos estranhamente de vida, me ocorrem fatos ou eventos positivos, felizes ou simplesmente bons, eu os desvalorizo, os desclassifico, os inferiorizo e os descarto, como se fossem obras de um sinistro acaso, como que não pertencessem à um padrão mais rígido e linear, fossem meras exceções.

Oras, mas porque cargas d’água eu faço isso? Uma profunda descrença na felicidade genuína.

Polivalência do Ser.

Não estou me referindo à multiplicidade de personalidades que acometem às pessoas em geral. No trabalho somos uma pessoa, em casa outra, na faculdade outra e assim por diante, apesar de no fundo continuarmos a carregar uma espécie de essência comum. Não me refiro a isso.

Me refiro a luta constante, crônica e diária na qual me encontro. Uma “parte” minha não consegue, simplesmente é incapaz de acreditar em coisas boas e na felicidade. Tudo de bom que me acontece perde significância e é relegado a um segundo plano inferior. Essa “parte”, “voz”, gene defeituoso, debilidade química, autoestima nula, ou o que vocês quiserem chamar, ela é “quase” masoquista, e trabalha constantemente para sabotar a minha vida em todos os aspectos possíveis. O problema é que existe uma segunda “parte”, uma parte que não QUER ser infeliz e continuar a se auto-depreciar, uma parte que ainda quer acreditar que a felicidade é possível, que ainda podemos ser amados e conseguir coisas boas na vida.

O pior e o mais aterrorizador disto tudo é a maldita consciência. A consciência de tudo isso. E a confusão mental. Princípio de esquizofrenia ou o quer que seja. No momento que você perde a linha frágil que distingue e separa essas vozes, você não sabe mais o que ou porque está fazendo, se é por vontade “própria” ou não. Merda! Qual doença faria alguém desejar o próprio fracasso e infelicidade ? Eu realmente quero ser feliz, só não consigo acreditar que é possível. Me sinto como no Fight Club e pelo menos duas pessoas habitassem meu ser e minha cabeça … isso produz uma angústia incrível … surreal … Um desespero genuíno e medonho … É difícil transcrever a sensação … é realmente muito absurdo e complicado … Essa desgraça desse existencialismo maldito …. Um ciclo vicioso … uma bad trip crônica … como sair disso tudo ? Quebrar esses paradigmas e acabar com tudo isso ? A morte às vezes parece uma solução … mas falta coragem …

Me lembro de um sonho que tive quando era adolescente. Eu era um soldado medieval. Lutava em uma guerra épica bravamente. Acabo sendo ferido mortalmente, mas a guerra acaba e eu sobrevivo. Volto me arrastando para o meu vilarejo. Entro em um casebre e uma mulher angelical de longo vestido branco e dourado me recebe nos braços. Uma mulher sem rosto. Uma anonima. Morro feliz em seus braços. Por muitos anos e talvez até hoje, talvez tenha sido um dos sonhos que mais me marcou. Volto e meia, me recordo dele. Talvez esse seja o erro … acreditar que milagrosamente alguém me amaria e me redimiria … me salvaria de mim mesmo … faria eu crer em mim mesmo … que a felicidade e o amor são possíveis …. Pois bem, já faz duas décadas que estou esperando … E agora já é tarde, não acredito mais nisso …

O que fazer quando seus poucos “amigos” lhe falham e vc se encontra quase sozinho consigo mesmo ? O que fazer quando os remédios, a nicotina ou o álcool não fazem mais efeito ?

Tentando cada vez mais ficar alheio ao mundo e as nossas dores vamos tentando acordar diariamente e ir trabalhar e ir para faculdade … mas o caminho é longo e tortuoso ….

Anúncios

Choquete no táxi, banalização e a morte do “Amor” …

Um conhecido postou um relato numa rede social que me inspirou a escrever sobre o assunto …

Estava ele voltando do trabalho de ônibus … eis que para ao lado do mesmo um táxi …. no táxi estava uma mulher fazendo sexo oral no motorista.

Isso me fez parar e pensar sobre muitas coisas correlatas.

Como, por exemplo, nesse fenômeno, que não acredito ter se iniciado na minha geração – suas origens remontam para algumas gerações atrás … Nesse fenômeno da banalização e da ridicularização do amor. Passei minha adolescência vendo meus colegas de turma competirem para ver quem, nas boates e baladas, “pegavam” um número maior de garotas. Nunca me identifiquei com isso, logo era segregado socialmente. Sabe, não sei se é por um “ultra-romantismo” iludido e falido, idealismo, saudosismo ou por algum pensamento retrógrado ou “atrasado”, mas eu nunca me conformei com esse estado de coisas … Um “grande amigo”, dessa época, hoje, por causa do pai rico, GANHOU uma boate na Barra (RJ) de presente … e vive postando fotos com lindas e “profundamente intelectualizadas” mulheres com a hashtag #vidadeherdeironãoéfácil …. Inveja minha ? Não … só fiquei triste quando soube do incêndio em uma boate não ter sido na dele … iria ter ficado bastante feliz … mas …o “cosmos” age por vontades estranhas …

Outra coisa é o fato da sociedade e de alguns amigos, se não todos, apresentarem fortes traços de misoginia … Sabe, não consigo me conformar com isso também … Como buscar uma companheira, uma pessoa para um relacionamento afetivo, se partem de um pressuposto que o outro lado da relação é nada mais que um objeto, ou algo a ser dominado e usado ? Não vejo as coisas por esse viés … Não se esquecendo de relativizar – muitas mulheres concordam com isso e até contribuem para tal …

Alguns amigos mais bem-aventurados, de espíritos mais livres, livres de constrições morais, éticas ou afetivas já me convidaram e quase me forçaram a ir em estabelecimentos de entretenimento onde mulheres podem ser “alugadas”. Não fui. Não quis. Não conseguiria me sentir bem em um lugar desses … O corpo tem suas necessidades, isso é óbvio … Mas me sentiria mal … pode ser uma limitação da minha personalidade, mas pra mim as coisas têm que ter sentimento, compromisso, … veracidade … posso estar iludido e errado, mas não sei ….

Olho para trás e vejo o casamento dos meus pais que foi sendo arrastado por mais de 20 anos … Aquele impulsionante amor inicial já tinha se esvaído há muito tempo, o que acarretou situações muito desagradáveis, traições, brigas infernais, até num clímax explosivo, acredito ter eu contribuído para ele acabar de uma vez …

Outra divagação: Alguém me disse noutro dia que viu dois “crackudos” transando na rua e ficou chocada, uma segunda pessoa pra quem contei a história também se chocou … Fico pensando: pessoas que não tem onde dormir, tomar banho ou defecar, … vão transar aonde ? E eu usei o termo “fazer amor” para o qual me responderam “eles estavam é fodendo” … os “crackudos” não podem amar ? Sua condição de miséria extrema os proíbe de num ato de extrema maldição fazer sexo na rua, na sarjeta, sua “moradia” … não podem eles também fazer amor e serem amados na miséria em que se encontram ? Não estou criticando as pessoas que me falaram isso, porque sei que foi em tom de brincadeira (pf !!), mas a reflexão é válida … ou então viajando um pouco mais: estariam eles também sujeitos às urgências do sexo casual sem compromisso ou então seriam eles também superficiais e misóginos ?

Voltamos a mulher no táxi … Será esse ato tão reprovável assim também ? Não sabemos os motivos que os levaram a tal circunstância, uns podem afirmar: e precisam existir motivos? Alguém não pode simplesmente transar porque quis e teve vontade ? É claro que pode, o que estou argumentando é o vazio e falta de significância nesses relacionamentos vazios, superficiais e etc que parecem constituir um novo padrão de vida e algo a ser seguido cegamente por todos …

Para fechar esse assunto:

Já faz alguns anos que para mim o “Amor” está MORTO. Pelo menos para minha pessoa. Alguns fatores contribuíram para se chegar a essa conclusão. A dificuldade de encontrar alguém que não seja superficial como nos parâmetros atuais; Algumas-muitas desilusões afetivas; e os nossos amigos que estão sempre presentes: um profundo self-hate e o pessimismo extremista. Mas eu posso dizer essas coisas, porque no meu modo racionalista fundamentalista de ser, eu pauto minhas decisões e minha vida em experiências empíricas verificadas e na nossa grande mãe, a História, ou seja, o passado. Assim como não creio em entidades e instâncias superiores, não consigo acreditar mais na possibilidade do amor. Há alguns anos atrás, quando andando pela rua encontrava flores pelo chão … eu pisava nelas … está tudo morto e enterrado. Parei com isso, elas não têm culpa … Acho muito difícil, hoje em dia, algo realmente me fazer mudar de opinião sobre tudo isso, uma luz clarear esse horizonte estranho … O “ultra-romântico” realmente deve morrer no século XXI … e ele vai morrer sozinho. Isso eu posso apostar.

Vou finalizar com duas músicas que sonorizam o que estou falando ….

Longe do Meu Lado
Legião Urbana

Se a paixão fosse realmente um bálsamo
O mundo não pareceria tão equivocado
Te dou carinho, respeito e um afago
Mas entenda, eu não estou apaixonado
A paixão já passou em minha vida
Foi até bom mas ao final deu tudo errado
E agora carrego em mim
Uma dor triste, um coração cicatrizado
E olha que tentei o meu caminho
Mas tudo agora é coisa do passado
Quero respeito e sempre ter alguém
Que me entenda e sempre fique a meu lado
Mas não, não quero estar apaixonado

A paixão quer sangue e corações arruinados
E saudade é só mágoa por ter sido feito tanto estrago
E essa escravidão e essa dor não quero mais
Quando acreditei que tudo era um fato consumado
Veio a foice e jogou-te longe
Longe do meu lado

Não estou mais pronto para lágrimas
Podemos ficar juntos e vivermos o futuro, não o passado
Veja o nosso mundo
Eu também sei que dizem
Que não existe amor errado
Mas entenda, não quero estar apaixonado

——————— x ———————-

Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me
The Smiths

Last night I dreamt
That somebody loved me
No hope, no harm
Just another false alarm

Last night I felt
Real arms around me
No hope, no harm
Just another false alarm

So, tell me how long
Before the last one?
And tell me how long
Before the right one?

The story is old – I know
But it goes on
The story is old – I know
But it goes on

——— x ————–

“Amar é a maior punição que o cético poderia receber” (F. Carpinejar)

Agonia dos Errantes

Sofremos diariamente com tudo e todos neste nosso paraíso chamado Brazil.

Morremos a cada dia, a cada batida de funk que emana dos aparelhos eletrônicos.

Morremos ao ver nossos representantes políticos tomarem o que não é de posse deles e acumularem riquezas impróprias. Deixando o povo miserável a minguar a esmo. Perdidos. Condenados.

Nos sepultamos ao descobrir que ninguém nunca leu e nunca lerá Dostoievski, Kafka, Lispector, … *

Estamos fadados eternamente a assistir tristemente este espetáculo acontecer!

Triste país esse o nosso!

 

Rio, 19/11/2009

 

* Nota posterior: Os senhores podem não acreditar, mas talvez a humanidade ainda possui salvação … Encontrei alguém que também lê Dostoievski …